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UMA AVALIAÇÃO SOBRE O CASO DO CANAL COBERTO DA VILA JACARÉ EM JUAZEIRO-BA

 

Matteo Nigro1

  1. Doutorando pelo Instituto de Geociência/UFBA. maartetteo@libero.it

 

RESUMO

O presente trabalho objetivou avaliar criticamente uma ação de política pública local – a cobertura do canal da Vila Jacaré – voltada a resolver uma questão de convivência com os cursos d’água no espaço da cidade. A cidade de Juazeiro-BA possui dentro da zona habitada, nove riachos urbanos com uma extensão total de 28 km que, ao longo do processo histórico de urbanização, foram transformados em grandes canais de esgoto a céu aberto. O canal da Vila Jacaré em origem era uma grande lagoa que foi em parte aterrada, depois retificada, transformada em curso d’água linear, que por sua vez foi impermeabilizado, revestido e coberto com placas de concreto. O estudo deste caso foi realizado mediante os recursos da pesquisa documental historiográfica (fotografias, mapas, textos), bem como aplicando entrevistas com a população e com gestores públicos das administrações municipais atuais e de anos atrás, focando na intervenção de tamponamento do córrego feita em 2004. Este texto, que constitui uma parte de uma tese de doutorado sobre os riachos urbanos, elenca os motivos pelos quais a obra do tamponamento do canal não merece uma avaliação positiva sob os pontos de vista ecológico/ambiental, da sua função social, e dos transtornos à população que ainda não foram resolvidos, considerando uma distância temporal de 12 anos. Da análise resultou que essa intervenção local sobre o córrego seguiu uma lógica política que tende a deturpar os espaços naturais na cidade com medidas que não resolvem na base uma questão de saneamento básico, mas somente escondem os esgotos por baixo de estruturas permanentes. A prática de algumas cidades brasileiras de cobrir os cursos d’água poluídos é não somente insustentável, mas também contrária à tendência mundial atual que visa à melhoria da qualidade ambiental das cidades por meio da recuperação dos rios urbanos. 

 

Palavras-chave: tamponamento de rios urbanos; drenagem pluvial; esgotamento sanitário; Juazeiro-BA.

 

Introdução

 

            Na maioria das cidades dentro e fora do Brasil existe algum curso d’água natural, como os rios, riachos, lagoas, mas quase nada desses elementos naturais é mantido na sua forma e função originais, já que é muito comum encontrar os cursos d’água urbanos em situação de extrema degradação ambiental.

Os poucos recursos naturais existentes nas cidades, como as áreas verdes e os corpos d’água, foram tornados escassos na medida em que aumentou a população e a consequente expansão física das cidades. Além do problema da escassez de áreas naturais na cidade, o que mais preocupa atualmente é a qualidade desses recursos que muitas vezes, ao invés de trazer benefícios ecológicos, climáticos, paisagísticos, entre outros, quando degradados, podem constituir focos de proliferação de vírus, sendo prejudiciais à saúde da população humana e animal. A exemplo disso, Liebmann (1979) explica que,

Muitas vezes, as doenças dos seres humanos e dos animais domésticos são condicionadas pelo ambiente. Os danos causados ao meio ambiente geram uma alteração do equilíbrio que originariamente regia a Natureza. Muitos organismos que, pressionados por condições naturais, eram inibidos em seu desenvolvimento, passam a dispor, devido à alteração do equilíbrio ecológico, de melhores condições de vida, multiplicando-se com rapidez e se transformando, de inofensivos parasitas, em transmissores de doenças (LIEBMANN, 1979, p. 71).

Entende-se que, “Em virtude dos danos ocasionados ao meio ambiente, cresce a sensibilidade humana aos vírus” (LIEBMANN, 1979, p. 74). Ou seja, diferentemente do passado quando o ambiente natural era menos degradado, atualmente as pessoas estão mais expostas e propensas a contrair doenças pelos vírus presentes na água, no ar, nos solos e nos alimentos infectados. Entre os exemplos mais comuns e mais atuais, ocorre a transmissão de doenças veiculadas através da água contaminada e ingerida sem passar por um tratamento eficiente que consiga eliminar as substâncias nocivas (que infelizmente não são poucas), ou mediante a veiculação de outros vetores de doenças que se proliferam nas superfícies de água, como o caso do mosquito.

Também na cidade de Juazeiro-BA, os ambientes naturais que foram desprezados e poluídos, da forma em que se encontram atualmente, representam um incômodo e foco de doenças para a população.

Juazeiro-BA é inserida numa bacia hidrográfica que é cortada por riachos, por isso na zona urbana existem originariamente três córregos naturais: os riachos Macarrão, Malhada e Mulungu. Esses três riachos cortam transversalmente a cidade, e dois deles (Malhada e Mulungu) se estendem para fora da zona urbana. Além dos três córregos naturais existem também outros riachos que apareceram posteriormente devido aos desvios, aterramentos, retificações, aberturas que ocorreram sobre os riachos ao longo do tempo; essas transformações que foram feitas para adaptar a expansão dos bairros com a hidrografia natural do terreno, aumentaram a quantidade de córregos, de modo que atualmente é possível reconhecer nove riachos na cidade: 1) Macarrão, 2) Malhada, 3) Mulungu, 4) antigo leito do Mulungu, 5) desvio do Mulungu, 6) desvio do Malhada, 7) braço do Malhada, 8) João Freitas, 9) Canal da Vila Jacaré (NIGRO, 2016 b).  

Tendo essa configuração, atualmente quando se faz referências aos riachos urbanos de Juazeiro-BA, é oportuno indicar os nove riachos atuais, e não somente os três riachos originais.

É importante destacar que os riachos urbanos de Juazeiro-BA não são mais corpos d’água intermitentes – como deveriam ser estando na região semiárida – mas sim perenes. Essa transformação ocorreu principalmente devido à grande quantidade de esgotos domésticos e industriais que é lançada diretamente nos riachos.

Sendo os riachos de Juazeiro parte do contexto geográfico de clima semiárido, seria de esperar que estes cursos d´água pudessem produzir efeitos paisagísticos e funcionais favoráveis para a cidade, mas ao contrário disso, atualmente na cidade de Juazeiro, estes riachos encontram-se muito transformados e degradados, a ponto de não serem mais reconhecidos como riachos, mas sim como canais receptores de despejos líquidos e sólidos. Mas sabe-se que esta não é uma peculiaridade somente do nosso estudo de caso, pois, de acordo com Almeida; Carvalho, (2010, p. 151), “Infelizmente, os rios urbanos no Brasil têm sido tratados como resíduos da cidade, fundos de lote e local de despejos. Há uma verdadeira negação da Natureza, principalmente no que se refere aos cursos d’água na cidade”.

Em Juazeiro-BA, a poluição dos riachos atualmente é tamanha para fazer com que a população não considere mais os riachos como elementos naturais, pois estes são vistos somente como canais de esgoto a céu aberto, embora na cidade existam até as placas estradais para sinalizar que por baixo das pontes da rodovia BR 407 passam os riachos, como no caso do riacho João Feitas (figura 1), Riacho Malhada (figura 2) e riacho Macarrão (figura 3).

 

Figura 1 – Riacho João Freitas (à esquerda) e placa de indicação do mesmo riacho (à direita).

Fotos de Matteo Nigro, 2015, Juazeiro – BA.

 

Figura 2 – Riacho Malhada (à esquerda) e placa de indicação do mesmo riacho (à direita).

Fotos de Matteo Nigro, 2015, Juazeiro – BA.

 

Figura 3 – Riacho Macarrão (à esquerda) e placa de indicação do mesmo riacho (à direita).

Fotos de Matteo Nigro, 2015, Juazeiro – BA.

À luz da situação em que se encontram os cursos d’água, tanto a população, como o poder público tem buscado entender como resolver os impactos gerados pela excessiva poluição, porém as propostas pensadas e as intervenções realizadas até agora, não se mostraram satisfatórias para estabelecer uma convivência digna e saudável entre a população e os cursos d’água urbanos.

O objeto de estudo deste trabalho é especificamente um dos nove córregos urbanos de Juazeiro-BA, que recebeu uma intervenção física – o canal da Vila Jacaré (chamado também ‘canal coberto’ da Av. Luiz Ignácio Lula da Silva). Este é um antigo riacho que em 2004 foi coberto por placas de cimento em toda a sua extensão (como mostra a figura 4), passando por cinco bairros centrais da cidade.

 

Figura 4 – Canal da Vila Jacaré antes (à esquerda) e depois de ser coberto (à direita).

Fotos: Jean Corrêa, 2003 (esquerda) e Matteo Nigro, 2015 (direita).

 

 

Objetivos

 

            O objetivo deste estudo foi avaliar criticamente a intervenção do tamponamento do canal da Vila Jacaré em Juazeiro-BA, no sentido de entender a sustentabilidade, ou não, dessa obra, tendo em vista a existência de outros oitos riachos na cidade. Especificamente foi investigado o percurso histórico da transformação do corpo d’água em canal coberto, e foi realizado um elenco dos aspectos que caracterizam o seu uso, a funcionalidade e os impactos socioambientais.

 

 

Metodologia

 

O estudo da reconstrução histórica dos riachos se baseou em diversas fontes de dados e informações qualitativas; entre estas teve importante papel a pesquisa documental, já que atualmente existe uma dezena de obras publicadas e descritivas tanto sobre a cidade como sobre toda a área do município de Juazeiro-BA. Segundo Garcez; Sena (1992),

Juazeiro, grande centro humano do Velho Chico, não é, não podia ser um município esquecido na historiografia regional. [...] Cidade progressista, Juazeiro da Bahia tem sido, no envolver histórico do País, ponto de fixação de gente e núcleo de penetração do interior brasileiro (GARCEZ; SENA, 1992, p. 10).

Foram historiadores e antigos personagens da política local que escreveram essas obras, das quais algumas têm um caráter de pesquisa histórica e outras com um viés mais voltado às memórias pessoais, porém na literatura existente não foram encontradas informações que tratassem especificamente dos riachos ou da hidrografia na zona urbana. Os autores que escreveram sobre Juazeiro-BA se concentraram mais em fazer uma descrição dos acontecimentos políticos da sociedade e, na sua maioria, provavelmente de forma inconsciente, ignoraram as especificidades locais das características naturais do sítio onde se localiza a cidade, sem dedicar parte dos textos à questão dos riachos ou aos aspectos físicos e ambientais; por isso os poucos dados específicos citados nas obras impressas não foram suficientes para permitir uma reconstrução detalhada dos fatos, somente a partir da literatura.

Diante dessa falta de material bibliográfico publicado, a pesquisa foi realizada também mediante informações oriundas de entrevistas e conversas informais, onde alguns cidadãos conhecedores das dinâmicas de transformação que ocorreram sobre a estrutura urbanística da cidade, relataram (certamente de forma não sistemática, nem cronológica) os eventos socioambientais que tiveram uma influência significativa a ponto de estimular algumas ações políticas – que não foram necessariamente positivas do ponto de vista ambiental – ligadas ao saneamento básico.

Além das informações qualitativas, os dados técnicos quantitativos foram levantados a partir de documentos (relatórios, mapas, fotografias) produzidos no âmbito da administração municipal ao longo do planejamento da cidade, disponíveis nos acervos da Prefeitura Municipal de Juazeiro (JUAZEIRO, 1985; 1981). Esses documentos atualmente servem de referência para tentar percorrer as etapas históricas da expansão da cidade.

O estudo sobre a lógica política que está por traz dessas intervenções urbanas foi realizado a partir da análise do discurso de alguns gestores públicos, bem como mediante a aplicação de entrevistas com a população local que reside no entorno do canal.

 

 

O caso do canal da Vila Jacaré: elementos históricos

 

A referência mais forte que os moradores de Juazeiro-BA têm em relação às intervenções sobre os riachos urbanos, é o caso do canal da Vila Jacaré, atualmente chamado canal coberto da Avenida Luís Ignácio Lula da Silva. No local onde se encontra este canal, inicialmente (antes da urbanização de Juazeiro) tinha uma grande lagoa intermitente (identificada como “lagoa do centro”) localizada no centro da cidade, como mostra o estudo sobre a trajetória histórica da transformação dos riachos urbanos:

Na parte central da faixa entre os dois grandes corpos d’água – rio São Francisco e riacho Macarrão – ainda existe uma depressão natural onde em origem havia uma lagoa (que não tinha denominação, mas daqui em diante a denominamos “lagoa do centro”) intermitente de dimensões razoáveis, situada exatamente na zona onde atualmente se encontra o canal da Vila Jacaré, ou seja, entre os atuais bairros Lomanto Junior, Jardim Novo Encontro, Santa Maria Goretti (NIGRO, 2016 a).

Ainda na década de 1970 nessa área da cidade, com cota de 362m, havia problemas de alagamentos por água de chuva que já se misturava com os esgotos. Conforme Juazeiro (1981), “Existem áreas alagadas perenemente nos bairros da Coréia, Maravilha e Lomanto Junior. Essas lagoas são alimentadas pelo escoamento dos despejos de grande parte da cidade, e se constituem em foco de contaminação”.

Entre as décadas de 1970-80 a grande “lagoa do centro” foi aterrada e transformada em um canal reto, poluído por dejetos líquidos e cercado por avenidas e habitações espalhadas em suas margens.

Seria ingênuo pensar que nos aglomerados urbanos, os rios e riachos pudessem ser mantidos na sua forma natural, porém as modificações físicas, químicas e biológicas desses ambientes, quando são planejadas e realizadas de acordo com os princípios da sustentabilidade, não devem trazer necessariamente a destruição do equilíbrio biológico. De acordo com Binder (2002),

Os rios estão permanentemente sujeitos à ocorrência de modificações no seu curso natural. As possibilidades de modificações naturais dos cursos d’água são fortemente limitadas em rios retificados e mantidos por obras hidráulicas. Este fato impede a renovação natural dos núcleos biológicos, das estruturas e das condições específicas das diversidades da biota (BINDER, 2002, p. 9).

Modificar um riacho urbano a ponto de prejudicar o próprio sistema ecológico e comprometer a vida das populações animais, vegetais e humanas que habitam este ambiente, significa ultrapassar a “capacidade de suporte” do riacho.

Em Juazeiro-BA, na medida em que acontecia a expansão física da cidade e o adensamento dos bairros, o mesmo não se dava com a infraestrutura de saneamento básico, pois os investimentos públicos e privados não eram realizados na mesma proporção. Logo, a infraestrutura de saneamento básico não conseguiu acompanhar o crescimento acelerado da cidade. Portanto, em vários bairros, na falta das estações elevatórias de esgoto e da rede coletora para o esgotamento sanitário que deveria transportar os esgotos para suas respetivas estações de tratamento (atualmente estas são insuficientes, existindo apenas duas lagoas de estabilização), as águas residuais que saem das residências são direcionados diretamente para os riachos onde é despejado o esgoto. Com isso, também o canal da Vila Jacaré foi – e ainda é – usado como corredor para transportar os esgotos até o riacho Macarrão, que por sua vez os leva até o seu corpo receptor final, o rio São Francisco.  

O referido córrego, que atualmente se encontra como canal coberto, tem seu início nas proximidades da rodovia BR 407, passando por baixo da Rua Oscar Ribeiro (figura 5), onde ele se encontra canalizado em forma de galeria subterrânea na rua asfaltada.

No documento de caracterização do saneamento básico da cidade durante a década de 1970 (JUAZEIRO, 1981), essa galeria subterrânea era a única infraestrutura de microdrenagem pluvial, que infelizmente não tem o dimensionamento suficiente para drenar o volume das precipitações, tanto atualmente como no passado:

Não existe sistema de drenagem de águas pluviais. Apenas nas proximidades do Estádio Municipal Adauto Morais, existe uma galeria de concreto, capeada ao nível da rua, dirigida para o bairro da Coréia. A declividade é insuficiente e por ocasião de chuvas mais fortes, o referido canal transborda pelas suas caixas de passagem, inundando toda a área em torno (JUAZEIRO, 1981).

A configuração da galeria que se junta com o canal coberto da Vila Jacaré, pode lembrar a ideia dos chamados “riachos invisíveis”; isso para fazer uma comparação com os rios invisíveis da cidade de São Paulo que recentemente começaram a ser estudados e a despertar o interesse da população. Segundo Groisman (2015), organizador da plataforma “mostra rios e ruas”,

A população paulistana foi levada a acreditar que os rios são inimigos do cidadão, por provocar mau cheiro, doenças, inundações, por impedir a ocupação e prejudicar o fluxo do trânsito. Tal crença tem justificado o progressivo soterramento de uma fabulosa malha hidrográfica. São mais de 300 rios que vivem hoje canalizados sob o concreto. Esses rios tornaram-se invisíveis (GROISMAN, 2015).

Figura 5 – Trecho da Rua Oscar Ribeiro, onde ocorre a galeria subterrânea que desemboca no canal da Vila Jacaré em direção à Rua do canal e à Avenida Luís Ignácio Lula da Silva.

Foto: M. Nigro, Juazeiro-BA, 2015.

 

 

A obra do tamponamento do curso d’água

 

O canal da Vila Jacaré atravessa vários bairros, começando pelo Centro e indo na direção do riacho Macarrão, onde deságua entre os bairros Lomanto Junior, Alto do Cruzeiro, e Jardim Novo Encontro, como mostra a figura 6.

A grande obra de canalização do canal da Vila Jacaré consistiu no revestimento das paredes laterais e no tamponamento (fechamento) do córrego com placas de concreto. A obra foi realizada em 2004, quando, a partir do momento em que as residências ribeirinhas desse córrego se multiplicaram aumentando o volume de esgoto produzido e despejado no córrego ainda aberto, a população se viu obrigada a conviver com o mau odor e com a proliferação de insetos – problemas estes que atualmente afetam também toda a população residente nas margens dos outros riachos urbanos –, portanto, graças a um recurso federal que o município obteve naquele ano, os gestores públicos da época decidiram que a solução mais adequada seria o tamponamento do córrego e a construção de duas vias asfaltadas nas laterais, ou seja, o córrego foi, além de revestido, canalizado e transformado numa avenida de mão dupla para o trânsito de veículos motorizados.

 

 

 

Figura 6 – Canal da Vila Jacaré

Elaboração: Nigro M. com base em pesquisa de campo, 2015.

 

Na ocasião, para essa Avenida foi colocado o nome do então presidente da República do Brasil, Luís Ignácio Lula da Silva. Até os dias atuais existem alguns moradores da cidade que criticam essa atitude, já que segundo a legislação vigente não é permitido nomear cidades, bairros ou ruas com nomes de pessoas ainda em vida.

Diante desse acontecimento que representou para a maioria da população a única solução possível para amenizar os problemas ocorridos pela falta de saneamento básico e pelo descuido com o córrego, vale registrar que essa intervenção foi realizada a apenas dois meses das eleições políticas municipais e, na ocasião, ao longo de toda a sua extensão foram encontrados diversos canos que ligavam as residências localizadas nas margens, com a própria calha do córrego, despejando nele os esgotos domésticos. Ora, é importante entender que a função desse córrego é, assim como a dos outros riachos, de drenar exclusivamente a água da chuva e não de receber os esgotos, no entanto, devido aos tempos restritos com que “era preciso” concluir a obra do tamponamento do córrego (antes da data das eleições municipais), as ligações diretas de esgotos das residências com o córrego foram ignoradas, e os revestimento e tamponamento foram realizados sem antes retirar o despejo irregular dos dejetos.

Como resultado disso, ocorreu que durante os 12 anos sucessivos até os dias atuais, a quantidade de esgoto que continuou sendo despejada no canal da Vila Jacaré aumentou na medida em que aumentaram as residências e os exercícios comerciais nos bairros atravessados pelo córrego, sendo que muitas destas residências ainda estão permanentemente despejando diretamente no canal os seus efluentes líquidos que correm por baixo das placas de concreto com que ele foi coberto.

Mas é oportuno entender que o esgoto despejado diretamente nesse canal não vem somente das ligações domiciliares irregulares, pois começa a ser lançado já no Centro da cidade, onde corre por baixo da rua Oscar Ribeiro, na galeria de drenagem que, continuando na sua extensão, vira o canal da Vila Jacaré. Ou seja, aqui é evidente uma interferência do sistema público de esgotamento sanitário na infraestrutura de drenagem pluvial. Isso mostra que a solução do problema não está somente na retirada das ligações domiciliares clandestinas de esgoto, mas sim num verdadeiro trabalho de infraestrutura para o saneamento básico por parte do poder público, separando a rede de coleta de esgoto da rede de drenagem, que atualmente se encontram misturadas em alguns pontos da cidade.

O agravante disso é que o canal da Vila Jacaré deságua no riacho Macarrão a céu aberto (como mostra a figura 7), que por sua vez leva as águas e os dejetos diretamente para o rio São Francisco sem antes passar por nenhum tratamento prévio, já que o riacho Macarrão passa exatamente ao lado das lagoas de estabilização localizadas depois da barragem de São Geraldo, mas suas águas não entram em nenhum momento nas lagoas. O riacho é usado por sua vez para receber a água tratada das lagoas e leva-las até a calha do rio São Francisco, e claramente essa água tratada pelas lagoas se mistura na sua totalidade com o esgoto não tratado proveniente dos nove riachos urbanos.

 

Figura 7 – Encontro do canal da Vila Jacaré com o riacho Macarrão

Foto: Nigro M., Juazeiro-BA, 2015.

 

Isso porque o contexto atual mostra claramente que todas as águas, tanto de chuva como de esgoto, que passam na rede natural de macrodrenagem formada pelos riachos, convergem num só ponto de saída direta que coincide com a foz do riacho Macarrão, jogando o esgoto in natura no rio São Francisco.

É notório que a ausência de tratamento de efluentes líquidos brutos (esgotos) provoca o aparecimento das doenças. Também o despejo de esgoto diretamente nos corpos d’águas, sejam estes inseridos em cidades ou não, afeta diretamente a saúde da população, tanto pelo fato de a população ingerir a água que pode estar contaminada, como pela possibilidade de ter contatos físicos com os esgotos lançados a céu abertos nos rios, riachos e lagoas urbanos e rurais.

Além do lançamento de esgoto in natura no rio São Francisco, da análise realizada se identificaram vários outros aspetos que continuam causando transtornos à população, considerando uma distância temporal de 12 anos da realização da obra.

O primeiro e mais evidente, é o grave problema da proliferação excessiva de insetos, principalmente mosquitos e muriçocas. Sobre esse aspecto é fundamental entender que, apesar de o córrego ter sido tamponado com placas fechadas de concreto, por baixo das placas continuam passando muito lentamente e permanentemente os esgotos domésticos, que constituem o foco da propagação das larvas onde essa água se encontra completamente contaminada por dejetos humanos e industriais, quase parada ou com pouca correnteza, atraindo os pernilongos, cujo habitat ideal para sua reprodução são as superfícies de água poluída,[1] ou seja, com muita matéria orgânica em decomposição (algas verdes e outros microrganismos) para poder alimentar as larvas. Além disso, as temperaturas elevadas da cidade favorecem a reprodução do mosquito durante o ano inteiro.

Segundo os relatos da população que mora às margens ou nas proximidades do canal da Vila Jacaré, após a obra do tamponamento do canal, ao longo dos anos, ao invés de diminuir, a proliferação de insetos aumentou de forma descontrolada, já que esses insetos com hábitos noturnos encontram nas aberturas dos bueiros de drenagem pluvial e nas fissuras entre as placas de concreto o caminho para sair do canal, invadir as residências e atormentar as noites dos moradores de Juazeiro.

O segundo aspecto, pelo qual não somente não melhorou a situação de quem mora próximo ao canal, mas que ainda nos dias atuais gera muita preocupação entre a população juazeirense é o problema dos alagamentos urbanos durante os dias de chuva. A cidade passa historicamente por esse transtorno a cada chuva de forte intensidade, mesmo de breve duração. Para Vieira; Cunha (2005),

As enchentes urbanas vêm constituindo um dos mais importantes impactos sobre a sociedade e podem ser provocadas por uma série de fatores, como aumento da precipitação, vazão dos picos de cheia e estrangulamento das seções transversais do rio, causado pelas obras de canalização, assoreamento, aterro e lixo (VIEIRA; CUNHA, 2005, p. 112).

No entorno do Canal da Vila Jacaré, cuja obra de impermeabilização e tamponamento diminuiu a sua capacidade de drenar as chuvas, a questão da drenagem está diretamente atrelada ao terceiro aspecto, que é o acumulo de resíduos sólidos nos pontos de passagem da água para ser escoada através do canal. Apesar de existirem ao longo de quase toda a extensão do canal muitos bueiros que deveriam permitir o escoamento rápido das chuvas que correm pela Avenida, eles não têm dimensões suficientes (como mostra a figura 8) para atender a função de drenagem durante os dias de chuva com um volume elevado. Portanto, os resíduos[2] espalhados pela Avenida nas margens das calçadas são levados pela correnteza das chuvas para os pontos mais baixos que correspondem aos bueiros e terminam obstruindo a passagem da água para o canal de drenagem, alagando assim a Avenida nos pontos mais vulneráveis. Diante disso, os moradores às vezes se veem obrigados a quebrar alguns pontos da calçada onde estão localizados os bueiros para aumentar a vazão e permitir o escoamento da água.

 

Figura 8 – Um dos bueiros para drenagem pluvial no canal da Avenida Luís Ignácio

Foto: Nigro M., 2015, Juazeiro-BA.

 

Além dos problemas já elencados que evidentemente não foram resolvidos com o tamponamento do canal, existem mais dois aspectos que merecem ser abordados em relação à intervenção realizada sobre o canal da Vila Jacaré: o primeiro é o mau odor vindo do esgoto que passa por baixo das placas de cimento, e o segundo – e não menos importante – é a própria configuração estética das placas.

O mau odor representa certamente um grande incômodo não somente para a população que mora das margens do canal, mas também para quem mora nas proximidades de todos os outros riachos de Juazeiro, já que o processo de putrefação da matéria orgânica presente nos efluentes líquidos despejados nos riachos ocorre permanentemente, e os elementos de cobertura do canal não são suficientes para impedir a saída dos gases.

É também por essa razão que a população não costuma caminhar sobre as placas do canal, por não suportar o mau odor. Mas não é a única causa; a própria estrutura das placas de cimento, a forma como elas foram instaladas e, de modo geral, a imagem que configuram esteticamente transmite insegurança em relação ao risco de quebra ou queda das próprias placas, apesar de elas serem armadas suficientemente para suportar o peso humano.

Todos esses aspectos juntos, somados à falta de arborização e ajardinamento nas laterais do canal e a falta de estruturas de lazer para população, fazem com que esse ambiente construído apareça como uma paisagem urbana extremamente “árida”, pouco aconchegante e não harmônica com a cidade, como mostra a figura 9.

 

Figura 9 – Canal coberto da Avenida Luís Ignácio

Foto: Nigro, M., 2015, Juazeiro-BA.

 

Diante da configuração atual do canal da Vila Jacaré é evidente que a intervenção do tamponamento do córrego não foi nem a única, nem a melhor solução existente para resolver os problemas que atingem não somente a população, mas também a vida do ambiente natural dentro e fora da cidade, sendo que os impactos da poluição dos riachos e, como consequência, do rio São Francisco, não se restringem somente à cidade.

 

 

Considerações Finais

 

            Os problemas de infraestrutura urbana ligados aos serviços de saneamento básico não são de imediata solução, porém as políticas públicas apressadas em tempos de eleições, acabam implementando obras que não resolvem os problemas na base, mas simplesmente tendem a esconder a sujeira por baixo do “tapete”, como no caso do canal da Vila Jacaré. Isso tem seu custo socioambiental a médio e longo prazo, pois são evidentes os impactos de certas ações imediatistas deturpadoras dos ambientes naturais.

Infelizmente, a maioria da população local ainda não é consciente de que para resolver o problema do esgoto a céu aberto é preciso investir em obras de esgotamento sanitário e de drenagem pluvial. O tamponamento dos riachos poluídos e transformados em canais de esgoto não é a melhor solução; pelo contrario, é somente uma forma imediatista, uma medida de urgência para melhorar o aspecto visual, que pode ser útil em período de eleições, já que a população desinformada aprova esse tipo de prática.  

A tendência mundial das cidades contemporâneas é recuperar cada vez mais uma qualidade ambiental urbana por meio da restauração de rios, riachos e lagoas. Existem muitas experiências espalhadas no Brasil e no Mundo, de cidades que desenterraram os rios urbanos que já estavam cobertos e escondidos debaixo de ruas e avenidas, como o rio Cheonggyecheon em Seul. Outros rios urbanos que se encontravam extremamente deteriorados foram restaurados como o rio Trent na Inglaterra, o rio Bievre na França, rio Brad na Escócia etc.; ou citando somente algumas experiências no Brasil, o rio das Velhas e o rio Mosquito em Minas Gerais, o rio Tijuco Preto em São Paulo (GARCIAS; ALFONSO, 2013).

Enquanto a consciência ambiental e as ciências defendem a recuperação dos ambientes naturais, portanto as palavras chaves atuais são revitalizar, limpar, recuperar, renaturalizar, renovar, restaurar os rios urbanos, em cidades como Juazeiro-BA, as políticas de intervenção sobre riachos seguem a tendência contraria, tamponando os corpos d’água para esconder os esgotos.

É importante entender também que a restauração dos riachos urbanos oferece outras oportunidades de requalificação do espaço nas margens dos córregos, como a instalação de parques lineares, de bancos e lixeiras, de rotas equipadas para ciclistas e pedestres, podendo dessa forma conseguir para a população: uma qualidade dos espaços de lazer, o benefício de praticar saúde preventiva na cidade, a oportunidade de melhorar a estética da paisagem, além de evitar os alagamentos urbanos, preservando o rio São Francisco. Será que uma política local atuando com ações deste tipo não ia merecer a aprovação da população?

 

 

Bibliografia

 

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BINDER, Walter. Rios e córregos: preservar - conservar - renaturalizar. Rio de Janeiro: SEMADS, 1998. 41 p.

GARCEZ, Angelina Nobre Rolim; SENA, Consuelo Pondé de. Juazeiro: trajetória histórica. Juazeiro-BA: Gráfica Gutemberg, 1992. 384 p.

GARCIAS, C.; ALFONSO, G.. Revitalização de rios urbanos. Salvador-BA. Revista eletrônica de gestão e tecnologias ambientais (GESTA): v.1, n.1, p. 131-144, 2013.

GROISMAN, Charles. Circuito e mostra rios e ruas. In: http://www.mostrarioseruas.com.br/plataforma.php. Acesso em 06 de jan. de 2016.

JUAZEIRO-BA. Síntese da problemática dos esgotos e da drenagem na sede municipal de Juazeiro-BA. Juazeiro-BA: Prefeitura Municipal de Juazeiro da Bahia, 1985.

­­­______. Projeto especial Cidades de porte médio, sub-projeto Juazeiro. Perfil da cidade de Juazeiro. Juazeiro-BA: escritório técnico de planejamento da Prefeitura Municipal, 1981. 

LIEBMANN, Hans. Terra, um planeta inabitável? Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade. Trad. de Flavio Muerer. Rio de Janeiro: biblioteca do exército, 1979. 181 p.

NIGRO, Matteo. O percurso histórico da transformação dos riachos em canais na cidade de Juazeiro-BA. In: II ENCONTRO DE GEOGRAFIA DO VALE DO SÃO FRANCISCO, 2016, Petrolina. Anais... Petrolina: UPE, 2016 a.

______. Os riachos urbanos e a rede de macrodrenagem em Juazeiro-BA. In: V SIMPÓSIO CIDADES MÉDIAS E PEQUENAS DA BAHIA, 2016, Ilheus. Anais... Ilheus: rede CMP, 2016 b. 

VIEIRA, Viviane; CUNHA, Sandra. Mudanças na rede de drenagem urbana de Teresópolis (Rio de Janeiro). In: GUERRA, A. J. T.; CUNHA, S. B. da (Orgs.). Impactos ambientais urbanos no Brasil. 3. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. p. 111-142.

           

 

 


[1]Ao contrario do Aedes aegypti (popularmente conhecido como mosquito da Dengue, da febre Chikungunya e do Zika virus), que se reproduz em água limpa.

[2] Folhagens, papel, plásticos de embalagens, material descartável de pequena dimensão, restos de cigarros etc. 

Postado em 19 de ABR 2017